A Raiz Quer Lembrar

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Num Brasil de condomínios recém-entregues, escolas exaustas e povoados engolidos pela seca, a água deveria ser só água, o mofo deveria ser só mofo, e pesquisa de campo deveria terminar na planilha. Mas algo antigo acorda na raiz da sede – um organismo que aprende nomes humanos, fala pelos canos, pelas paredes e pelos poços, e começa a costurar tudo em um único corpo de lembrança.

Um morador em busca de um "cantinho só seu", uma professora de História cansada de ver o sistema moer gente, um grupo de pesquisadores em uma estufa abandonada e um homem do sertão que só queria chuva carregam a mesma ferida: viver num mundo onde a falta (de água, de futuro, de pertencimento) é diária. Quando todos começam a ouvir a mesma frase impossível na água e no concreto, eles percebem que não estão apenas sendo observados – estão sendo chamados.

A força que responde não é um vilão clássico, mas uma inteligência vegetal e líquida, que atravessa décadas, experimentos científicos e rezas de beira de poço. Ela oferece abrigo, memória e alívio da solidão, ao custo de desfazer as bordas entre casa e corpo, entre cidade e planta, entre indivíduo e raiz. E, quanto mais tentam medir, explicar ou conter o fenômeno, mais ele se infiltra: nas caixas d'água do condomínio, nos cadernos de campo, nas barrigas grávidas, nas orações tortas da comunidade.

A escalada é lenta e inevitável: paredes começam a chorar, a água ganha gosto de infância que não é sua, símbolos de três linhas surgem em azulejos, peles e mapas de mofo. O prédio respira, o poço pisca, a estufa muda a gravidade. Cada pequena concessão – um gole, um toque na raiz, uma palavra repetida sem entender – cobra um preço no corpo, na memória e na própria ideia de "eu".

Até que a escolha fica clara e insuportável: resistir e permanecer humano num mundo que desaba de sede, ou aceitar florescer dentro de um organismo maior, tornando-se célula de uma memória coletiva que não esquece nada – nem a fome, nem quem a causou. Não existe saída limpa: qualquer decisão implica trair alguém – a si mesmo, quem ficou do lado de fora ou a própria raiz que insiste em lembrar.

A Raiz Quer Lembrar é uma leitura de horror ecológico e estranho, de linguagem sensorial e ritmo de rito, que mistura sertão, condomínio popular, laboratório universitário e língua inventada para perguntar o que acontece quando a terra decide lembrar por nós. Ideal para quem se deixa atravessar pelo clima denso de Jeff VanderMeer, pela estranheza íntima de Samanta Schweblin e pela força de território de Itamar Vieira Junior.

(terror; horror ecológico e weird; adulto; poético, atmosférico e crescente)

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